São claras as diferenças culturais que explicam a afirmação chinesa no Mundo ao mesmo tempo em que os Europeus, tranquilos com a sua qualidade de vida, bebem o seu café da manhã. A influência do Confucionismo, a necessidade reduzida de socialização, a ideia de perfeição, a adição às tecnologias, e a competitividade derivada do volume de população, explicam parte da equação.

Estava a passar numa rua de Taipei quando reparei numa bonita cerca de verga vedando um pequeno jardim e pensei para mim mesmo: “em Portugal estaria destruída desde o segundo dia em que foi posta”. E decidi ir perceber porquê. Porque é que aquela triste cerca continuava ali, sem que ninguém reparasse nela.

Quando há seis meses atrás decidi aproveitar uma bolsa de estudos e vir conhecer a cultura chinesa, nunca pensei que me fosse deparar com uma cultura tão diferente. Depois de Taiwan, Macau, Hong Kong e China, creio que posso afirmar que a China é um mundo à parte dentro do mesmo planeta.

“Que mundo é este em que as pessoas não usam o Google, onde o Facebook não existe, as compras não se fazem na Amazon, as estradas carregam os carros elétricos, e em que o Governo tem câmeras de vigilância em todas as ruas do país?”

Estas são algumas das perguntas que a que tento responder. 

Após algumas semanas comecei a deparar-me com a imensidade de templos Budistas e Confucionistas que existem por todas as ruas, e a influência destes na sociedade. É verdade, viajei bastante pela Europa, vivi na América do Sul, e em tempos fui aos Estados Unidos, mas era a minha primeira vez num local onde a educação não se baseava num modelo, no final do dia, Judaico-Cristão.

Na faculdade tive uma situação caricata em que fiz uma pergunta à minha professora e ela respondeu: “O Tomás já fez mais perguntas em 5 minutos do que os meus alunos na minha aula anterior” (aula de alunos exclusivamente chineses que estudam o que os pais decidiram que estudariam). Acontece que aqui, as pessoas são instruídas, desde pequenas, pelos valores do Budismo e, sobretudo, do Confucionismo. Não questionar os superiores faz parte da lição “Como pode evoluir uma sociedade que não questiona?” pergunto-me eu. 

Têm quem pense por eles. Um governo que manda e decide praticamente tudo sobre a sua vida, bem como alguns empresários que tratam de pôr o país a produzir a passos largos.

O famoso Tao (Taoísmo), 道 (“Dào” em chinês), “path” (em inglês), ou “caminho” (em português) é levado a sério pela população chinesa, e no fundo diz que cada um deve viver a sua própria vida, o seu próprio caminho. Isto choca com um dos princípios básicos do Catolicismo português em que o papel do “outro” é anunciado frequentemente pela igreja como algo ainda mais importante do que o “eu”.

Esta “pequena” diferença começa por conseguir explicar porque é que aqui as pessoas não falam quando comem, os alunos não questionam os professores, e os desportos em que se distinguem são os individuais, como a ginástica.

Temo que com a nova medida “à la Black Mirror” imposta recentemente pelo Governo, em que as pessoas passaram a ser classificadas com um ranking social (uma espécie de “likes” do Facebook para a vida real) que é pedido desde as entrevistas de emprego aos julgamentos em tribunal, este distanciamento entre as pessoas apenas se venha a agravar.

O elevado número de habitantes tem aumentado drasticamente a competição em coisas simples como o acesso à educação. Mesmo com o número de faculdades a duplicar a cada 4 anos, é completamente impossível servir toda a população e, embora no interior ainda se sinta pouco, nas cidades é possível sentir o nível de vida mais apressado e competitivo.

O ponto é: a necessidade de socialização é algo que se está a evaporar em prol da necessidade de especialização. As pessoas vivem preocupadas com o trabalho, a não falar inglês, mas a saber todas as palavras do dicionário, e a perceber qual é o novo avanço tecnológico que podem implementar. Isto vai permitindo que a pouco e pouco os chineses ganhem algum “momentum” em trabalhos como programação, IT ou Matemáticas.

E quais vão ser as consequências? 

São difíceis de prever pois a China é enorme e isto é algo que ainda se sente pouco na maior parte do país, que mantém um estilo de vida muito social e com muito calor humano. No entanto, é difícil adivinhar quais são as consequências que este impulso terá para o futuro das outras regiões do Globo. Projetos como o “Belt and Road” (projeto megalómano de transportes que está a ligar a China a toda a Europa através de uma rede ferroviária) já começaram a ser contruídos e variáveis como o investimento direto chinês em Portugal têm aumentado de ano para ano. Embora seja difícil dizer que os chineses se vão apoderar de muitas profissões na Europa e no Mundo, até porque existem outras implicações como a adaptação social, o que é certo é que em países como a Austrália (em que o número de chineses já representa cerca de 10% da população) e em cidades como Sydney, isto é algo que já está a acontecer. 

Hong Kong é outro ótimo exemplo, onde as disparidades sociais são alarmantes e as pessoas de origem local vivem com uma baixa qualidade de vida, uma vez que os trabalhos secundários e terciários foram praticamente todos tomados por pessoas de origem estrangeira.

Acontece porque, em média, o aluno chinês é mais qualificado tecnicamente e é extremamente mais trabalhador e focado, e que se adapta otimamente às necessidades das profissões de hoje em dia. Quanto a componente social, creio que essa poderá aprendê-la com alguns anos de profissão, a viver no país em questão.

É certo que a Europa é de facto o local com maior presença do socialismo em todo o mundo, e onde as diferenças sociais serão sempre mais combatidas através do pagamento de impostos progressivos, o que torna difícil afirmar se esta é uma realidade que possa vir a ser verificada no nosso continente. Mas apesar de não haver um certo ou errado nem uma solução mágica, será importante para a Europa saber adaptar-se às novas tecnologias e repensar nos seus modelos de ensino de forma a que consiga voltar a ser competitiva e que a sua população seja suficientemente instruída para fazer face aos desafios futuros.

Tomás Portas

Vogal da JSD Distrital de Lisboa