Se dividíssemos a regra e esquadro o século XX europeu, obteríamos duas partes diametralmente opostas. A primeira metade ficou marcada por duas grandes guerras mundiais, enquanto a segunda, embora com desafios próprios de um trilho de união de povos tão diferentes, configurou-se com um período de várias décadas de paz. Focando a II Guerra Mundial, chegamos a 1945 com uma Europa de rastos. Tanto a derrotada Alemanha, com irreparáveis perdas humanas, materiais e morais, como as vencedoras França e Inglaterra, viram as suas capitais, os seus territórios, caídos pela força negra do belicismo. 

Como resposta a esta cenário, foi vital a ajuda dos E.U.A., que viram na instabilidade dos países europeus uma via aberta para o florescer do comunismo no pós-guerra. O Plano Marshall, de 1947, contribui com algo ao equivalente a 143 mil milhões de euros, tendo em conta a inflação — ajudando à recuperação dos países europeus.

Findo o programa, a economia de todos os países participantes tinha crescido consideravelmente acima dos níveis pré-guerra, com excepção da Alemanha.

Em 1951, 6 países (Alemanha, Bélgica, França, Itália, Luxemburgo e Países Baixos assinam , em Paris, o tratado que criava a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA). Caminhou-se para um entendimento favorável ao intercâmbio de matérias- primas necessárias para a siderurgia, incrementando o dinamismo económico, permitindo à Europa ganhar autonomia na produção, tornando-se independente de qualquer entidade exterior.

Em concomitância com a independência e grande pujança na capacidade produtiva, industrial, na entrada da segunda metade do século XX, a Europa percorreu um caminho exemplar no que concerne ao desenvolvimento económico, à investigação, à inovação cultural e na promoção da estabilidade social, que acabou por tornar a Europa o mais seguro e estável dos continentes (valendo à União Europeia, pelo seu caminho de união e promoção da paz, sustentado em valores sólidos e exemplares para o Mundo, o Prémio Nobel da Paz em 2012). 

Chegados ao século XXI, rapidamente nos apercebemos de que o equilíbrio de forças do Mundo mudou e continuamente mudará nesta primeira metade do século. Segundo projecções da PricewaterhouseCoopers, em 2050 apenas duas economias europeias constarão do “top 10” da economia mundial, em nono o principal motor do “velho continente”, a Alemanha, e em décimo o Reino Unido (que por essa altura já não pertencerá à União Europeia, restando saber os moldes que regerão a cooperação do UE-Reino Unido do “Brexit” para a frente). Segundo o mesmo estudo, países como a Indonésia e Brasil sobem as suas posições no “ranking”, consolidando-se como a quarta e quinta economias mundiais, sendo que o México será um novo membro desta lista, ultrapassando directamente as potências europeias. 

O “establishment” dita agora uma efectiva competição da China com os E.U.A. na posição cimeira da economia mundial, nomeadamente com a sua “Nova Rota da Seda”, e tendo em conta que a actual administração da Casa Branca já não vê a Europa como seu parceiro primordial, obriga a uma revisão estratégica, precedida de reflexão por parte do “Velho Continente”. A Índia consolidará a sua posição enquanto terceira potência mundial, e do “ranking” mencionado supra faltam apenas mencionar a Rússia e o Japão. 

Como deve então a Europa posicionar-se neste “Mundo Novo”? 

Pedro Colaço

Coordenador do Gabinete de Ação Social da JSD Distrital de Lisboa