A arte diz o indizível; exprime o inexprimível, traduz o intraduzível. Leonardo da Vinci

A arte sempre permitiu ao ser humano, ora representar a suas dificuldades e amarguras, ora representar os seus sonhos e reflexões. Guarda a memória do que foi vivido e sentido e, através dela, inspiram-se as gerações vindouras.

Através das pinturas rupestres, onde se registavam os feitos dos animais caçados;

Da música, que alimentou espíritos revolucionários e os permitiu comunicar entre si;

Da pintura e da escultura, que idealizaram a perfeição humana, tão depressa como representaram a sua impossibilidade;

Do cinema, que despiu o Homem, e o confrontou com as suas próprias falhas, gerando gargalhadas – herança dramaturga – ridendo castigat mores.

Das prosas e da poesia, como uma organização e reflexão da confusão de sentimentos, que, por vezes, nos assolam.

Simultaneamente, tantos foram os artistas, com Van Gogh e Luís de Camões, cujo brilhantismo só foi reconhecido demasiado tarde.

Tantas são as vezes em que recusamos a arte abstrata, incapazes de atingir o seu raciocínio complexo.

Quantas vezes comprámos uma peça de roupa, ou algo igualmente mundano, que tão pouco nos acrescentava, ao invés de um livro.

As tão poucas vezes em que corremos ao Politeama, ou assistimos a um bailado; e a facilidade com que jantamos fora pela 3° vez na mesma semana.

Todos os dias em que preferimos bronzear na praia, a cultivar-nos nos museus, que a nossa cidade tem para nos oferecer.

E de um momento para o outro, como se de uma brincadeira irónica de Minerva se tratasse, estamos confinados às nossas casas. Como que a obrigar-nos, neste dia Mundial das Artes, a refletir…

Como os livros nos permitiram levitar do sofá e, escorregando nas letras, viajar para outras vidas e outros tempos.

Como personagens de filmes e séries se tornaram a companhia de almas sós.

Como a música nos adormeceu, e tranquilizou noites de maior angústia, pelo estado do País.

Como milhares se arrepiaram, ouvindo Bocelli à distância, alimentando a esperança no coração e, fechando os olhos, capazes de sentir a imponência da Duomo de Milão vazia.

As notícias, as estatísticas e os estudos deixarão um relato de quando o mundo atravessou a pandemia do Covid-19. Um relato de quando o mundo desacelerou. De quando as grandes avenidas ficaram desertas, os hospitais transbordaram, e vários setores da economia pararam por completo.

As prosas, as músicas, os poemas e as caricaturas deixarão para a história como o mundo foi sentido.

Como cada coração bateu a um ritmo diferente.

Como a saudade moeu, a claustrofobia sufocou, o tédio desesperou, e o desejo de amar e ser amado se intensificou.

E como a arte, todos esses estados de alma, reconfortou.

Eva Brás Pinho

Secretária-Geral da JSD Cascais