Coronavírus. Se há 3 meses me vendessem esta história eu não acreditaria. Não vinha nas revistas, nos jornais ou nas entrelinhas das previsões do Borda D’Água. Este vírus tem nos surpreendido pela sua irregularidade e imprevisibilidade, não dando muita margem para respostas definitivas sobre o nosso retorno à normalidade. Isso assusta-me.

Contudo, há uma coisa que desde já temos a certeza: a crise económica e social que nos está a bater à porta. Está mais do que visto que a história do Diabo afinal era para meninos.

As primeiras projeções de instituições internacionais indicam uma contração do PIB português deste ano, em grandezas só vistas em 1928, quando a economia portuguesa registou uma recessão de quase 10%. As recomendações para governos e bancos centrais inundarem as economias com dinheiro para relançar a produção e o consumo multiplicam-se. É unânime que o que iremos discutir amanhã já deveria ter sido implementado ontem. Para além de vidas humanas, tudo neste momento se mede em tempo e rapidez. Rapidez em recomeçar as produções fabris, rapidez em reabrir as escolas, rapidez em reabrir o comércio. Mas será que não estaremos a começar pelo fim?

O confinamento que nos é imposto não tem paralelo. Hoje, temos quatro mil milhões de pessoas recolhidas em suas casas, sem consumir, sem produzir. Nem em tempos de guerra se viu uma ação tão consertada como esta.

Com fronteiras encerradas, com o turismo nas ruas da amargura, com a produção estagnada à espera do tiro de partida e com o consumo dirigido estritamente para o essencial, em termos económicos, a solução desta equação só pode ser desastre elevado ao quadrado.

Governos discutem pacotes de estímulos de biliões de euros e anunciam-os como o Santo Graal para a resolução dos nossos problemas. Calendariza-se a reabertura tímida de algumas economias e ensaiam-se tentativas e planos para uma retoma gradual das nossas vidas e rotinas. Tudo isto nos é transmitido através da questão da balança, ou seja, está a chegar a altura em que a hecatombe económica que se anuncia poderá causar mais vítimas do que o próprio vírus, e passaremos a morrer da cura e não da doença. Este pensamento tem uma razão de ser e não é totalmente descabido. O problema é que há algo que não estamos a ter em conta. Algo que nem mesmo um helicopter money consegue comprar. A confiança.

Hoje, a confiança procura-se, escasseia. Uma confiança que vai muito para além daquele que é o nosso sentimento económico para o curto e médio prazo. É a confiança em sair à rua, de ir ao restaurante, de ir ao festival de verão, de ver um jogo de futebol ou de entrar numa superfície comercial. É a confiança no outro e acreditar que qualquer um pode ser um potencial portador e transmissor do vírus. Passamos da confiança para a desconfiança compulsiva e sistemática. Tudo aponta para que este sentimento se mantenha e perdure no tempo tendo, talvez, como prazo de validade, a data de entrada no mercado de uma vacina.

Por isso, achar que abrir tudo é a poção mágica para relançar a economia e voltar ao patamar em que nos encontrávamos no período pré-covid, em meia dúzia de meses, é uma utopia. É perceber que no dia em que isso acontecer, o resultado não será o esperado e é preciso termos a noção disso. O sentimento geral de confiança não existe em todos os sentidos. Mesmo que amanhã nos encham os bolsos de dinheiro, poucos serão aqueles que estarão dispostos a pôr um pé fora de casa para voltar aos padrões de consumo que tinham até há 2 meses atrás.

O mundo está a mudar e a realidade de cada um de nós também. Para muitos, as deslocações em transportes públicos, a ida ao cabeleireiro ou os jantares com amigos serão, durante os próximos meses, cartas fora do baralho. Isto é economia ou, neste caso, a falta dela.

O relançamento da economia urge como necessário, mas difícil. Poderemos atingir o estado de frustração com a ineficiência das políticas económicas. Reconstruir a confiança sem querer pôr a carroça à frente dos bois a fim de evitar uma recaída com uma segunda vaga e um novo pico da pandemia que descandiaria automaticamente uma espiral vertiginosa nas nossas vidas.

Nem tudo é uma overdose de horror. Como nos é natural e característico, o ser humano adapta-se às circunstâncias e encontra nas adversidades, oportunidades. O ano de 2020 marca a viragem de um capítulo em tudo o que nos rodeia, a começar pela economia e pelo trabalho. Em meia dúzia de dias fizemos mudanças que até então pensávamos que iriam demorar uma década a materializar-se, como por exemplo, a liberalização do teletrabalho que obrigou, quer as empresas, quer os trabalhadores, a um salto tecnológico em tempo recorde. Esta tem de ser a oportunidade de converter Portugal à Industrialização 4.0  e ao século XXI.Se não formos capazes de o fazer agora, então quando seremos?

Contudo, temos de estar otimistas. Até agora, a crise sanitária não atingiu as proporções que muitos anunciavam. Apesar das dificuldades, o Serviço Nacional de Saúde tem estado à altura do problema e tudo isto são peças fundamentais para a reconstrução da confiança.

Certamente, chegará o dia em que teremos o à vontade para sair de casa e começar a reerguer o nosso país. Para isso temos de continuar a priorizar o distanciamento social e minorar os nossos comportamentos de risco porque mais que uma recomendação, é a nossa obrigação.

João Correas,

Membro do Gabinete de Economia da JSD Distrital de Lisboa