A iniciativa da JSD Distrital de Lisboa de assinalar o Dia da Europa de 2017 convidando pessoas fora do seu perímetro político, como é o meu caso, para refletirem sobre os desafios que se colocam à União Europeia, 60 anos depois do Tratado de Roma, é muito meritória e um bom exemplo do espírito de cidadania que deve presidir ao desenvolvimento do projeto europeu. 

Para olharmos de forma consistente para o futuro, temos que ter presente a memória do que foi e do que é o projeto europeu. 

Para muitas gerações de europeus, ainda recordados das guerras que dilaceraram o mundo em geral e a Europa em particular na primeira metade do Século XX o projeto europeu é antes de mais um projeto de paz. O tempo e as décadas sucessivas de paz relativa que temos podido viver, tendem a reduzir o peso deste argumento. Importa sermos vigilantes. A estagnação e a indecisão foram no passado, no território europeu, sinónimos de confrontação e violência. Temos a obrigação de não repetir o ciclo. 

Para outras gerações, que viveram décadas sob regimes ditatoriais de matizes diversas, a UE é um projeto de Liberdade. A Liberdade é um valor supremo que tende a ser desvalorizado quando se dá por adquirido. A UE vive hoje um risco efetivo de cerco da liberdade, com o surgimento dos regimes ditos “iliberais”, com as novas formas de manipulação da informação permitidas pela aceleração da sociedade digital e com as ameaças à privacidade colocadas pelo potencial uso indevido dos dados.

Quando assinalamos os 60 anos do Tratado de Roma, já não basta proclamar mais e melhor UE para mobilizar os cidadãos, mesmo que mais e melhor UE signifique mais e melhor capacidade de evitar o retorno da guerra ou a usurpação da liberdade.

Precisamos ir mais além e traduzir o projeto europeu naquilo que ele significa para cada pessoa em particular, em termos de acesso ao conhecimento, ao emprego digno, à justiça, à saúde, à vida num ambiente sustentável e saudável.

Os europeus e em particular as gerações mais jovens têm hoje consciência que a globalização gera novas oportunidades e novos constrangimentos. A incerteza passou a ser uma parte determinante da equação de cada vida em particular e de cada comunidade em concreto.

Neste novo contexto, a proclamação dos valores humanistas que definem o projeto europeu não basta. Eles têm que ter consequências no dia-a-dia das pessoas, na redução das desigualdades brutais, no aumento da transparência e da confiança entre os representantes políticos e os eleitores, na maior abertura à participação cívica dos cidadãos na tomada e concretização das decisões políticas e na valorização dos fatores imateriais que geram qualidade de vida sem pressionarem os recursos naturais.

Esta rota para responder aos desafios do projeto europeu, tem que ser percorrida sobre um furacão geoestratégico de desordem global, no quadro de arranque do Brexit, com eleições cruciais a acontecerem nos Estados-membros da UE e um pacote de cinco cenários de futuro colocados em cima da mesa pela Comissão Europeia.

O pior que pode acontecer é ficarmos paralisados perante a complexidade. Precisamos de escolher algumas prioridades e avançar. Nenhum país membro que queira avançar pode ser deixado ficar para trás. Nenhum país membro que queira travar pode impedir os outros de fazerem o seu caminho.

E que prioridades? Que excelente questão para mobilizarmos os europeus, em particular os mais jovens, para fazerem escolhas concretas e assumirem o seu compromisso pessoal com o futuro da União Europeia. 

Completar a União Económica e Monetária, consolidar uma voz global na política externa, aumentar os recursos próprios da União, aprofundar a dimensão social, construir uma política de defesa e segurança comum embebida dos valores humanistas europeus, apostar em áreas tecnológicas em que possamos liderar à escala global como a transição energética e na sociedade digital inclusiva. Estas seriam as minhas escolhas.

 E quais seriam as suas? Quais são as escolhas dos 500 milhões de europeus? Só respeitando as suas escolhas, eles escolherão o projeto europeu como o seu projeto de futuro.


Carlos Zorrinho, Eurodeputado

Grupo da Aliança Progressista dos Socialistas e Democratas no Parlamento Europeu (S&D)

Artigo de 9 de Maio de 2017 a propósito do Dia da Europa