Vivendo nós uma pandemia, com um impacto enorme na Saúde Pública, lembro alguns dados que me parecem importantes para o durante e pós-pandemia no sector da saúde em Portugal: 

– Dado preocupante, 1/4 dos portugueses que sofrem AVC’s deixaram de ir às urgências, por receio neste panorama, mesmo havendo áreas separadas nos hospitais. As autoridades de saúde aconselham o habitual recurso ao 112 para que se encaminhe o doente de forma correcta. Enfartes do miocárdio, tromboses, entre outras doenças no topo da hierarquia da mortalidade em Portugal ficam sem tratamento e sem avaliação do “pós” no que toca a sequelas. 

– A fisioterapia é fundamental para a área das doenças músculo-esqueléticas mais do que abundantes em Portugal, mas também nos  AVC’s. No caso de AVC havendo ausência no processo de recuperação, esta constitui uma falha grave na recuperação do mesmo, sendo esta a principal causa de morte em Portugal. A vacinação no primeiro ano de vida é essencial. Não queremos que, além do Covid-19, surjam surtos de sarampo, tosse convulsa ou meningites . 

– A saúde oral é foco de muitas das doenças do nosso corpo e tem que haver solução para que os médicos dentistas não continuem totalmente inactivo, ficando os doentes sem acesso a tratamentos dentários a não ser casos raros de urgência (todos os dias na farmácia me pedem Brufen Clonix e antibiótico sem acesso a receita médica como clara situação de recurso ou desespero).

– Há tendência a encarar o número de recuperados, como se os doentes fossem máquinas às quais se fez uma alteração de peças e estão agora de volta ao seu estado original. Muitos destes doentes recuperados da COVID-19 não voltam ao seu estado de saúde original. Muitos deles idosos são já doentes crónicos e acrescentam co-mobilidades ao seu quadro clínico. O frequente desenvolvimento de pneumonia pela actuação do vírus, por exemplo, tem forte impacto na capacidade pulmonar dos doentes. Muitos dos doentes vêm diversos órgãos serem afectados durante a infecção, etc. 

– As farmácias que não foram chamadas a actuar nesta crise, o que podia ter resultado em resultados ainda melhores dos que temos obtido, facilitando o rastreio e aliviando a pressão sobre o meio hospitalar (tal como sobre o SNS24) e sobre os médicos e enfermeiros que autênticos heróis, acusam o desgaste físico e psicológico que é lutar contra um inimigo tão contagioso, sobre o qual conhecemos pouco. As farmácias devem ser chamadas à actuação nos cuidados primários depois da tempestade, sendo um erro estratégico crasso ver a “rede farmácias”, uma primeira linha de actuação, com perto de 3000 farmácias comunitárias dispersa por todo o território (em vários sítios remotos do Alto , acessíveis, versáteis e com profissionais altamente qualificados, como uma rede paralela do SNS.

– Não haverá área em que o cenário sofrerá maior ‘pancada’ do que a saúde mental. Ao problema de saúde pública segue-se a economia e a provável instabilidade, esperemos que não convulsão social. Não se pode atenuar essa realidade sem os psicólogos como braço armado do SNS.

Tudo isto terá que ser analisado já pelo poder decisor com a devida capacidade de abstracção, para preparar o SNS para o pós-COVID, tendo que haver actuação célere para minimização do impacto num sistema já cronicamente frágil.

Pedro Colaço

Coordenador do Gabinete de Ação Social da JSD Distrital de Lisboa