Health is made at home, hospitals are for repair‘ ou qualquer uma das sábias frases do Professor Fernando de Pádua adequam-se a este pensamento que me invade. Já começa a ser hábito, na Farmácia, o meu local de trabalho, eu dizer aos utentes, ali tudo idoso, que se não se mexe, não come bem, não bebe 1,5-2litros de água/dia consoante a estação do ano, se ingere bebidas alcoólicas em maior quantidade do que o considerado moderação, fuma, não dorme bem, não descansa, não se encontra espiritualmente equilibrado, não fomenta e preserva boas relações familiares, amorosas, de amizade, eu não estou ali a fazer nada. 

Vindo de Harvard, Estados Unidos da América onde teve como mestre o Dr. Paul White, cardiologista do ex-Presidente dos E.U.A. Eisenhower, a grande referência da medicina preventiva em Portugal, o Prof. Fernando de Pádua chegou a Portugal com ideias consideradas descontextualizadas, até absurdas, face ao estado da Arte e à luz da época. Uma delas é o foco da terapêutica ser o tratar o “doente em pé” (ambulatório) e não o “doente deitado” (internamento). Se o foco for a prevenção e promoção da saúde, e de vez teremos que alterar o paradigma para apontar esta direcção, podemos evitar 80% dos internamentos (e todas as consequências do mesmo a nível €, recursos humanos, logística, combate à elevadíssima taxa de infecção nosocomial dos hospitais portugueses e a própria eficácia da terapêutica/cura). 

Estamos a falar em finais da década de 50, início de 60 do século passado, e se essas ideias eram na altura consideradas muitas delas “fora”, e hoje em dia são consideradas sábias e vanguardistas, a verdade é que passadas 6 décadas, muito do que o Prof. Fernando de Pádua sonhou para a saúde do portugueses continua por cumprir, e se muitos passos foram dados, o seu sonho continua por cumprir. 

A “praxis” dita que a esmagadora maioria das análises que se fazem do SNS, estejam por norma focadas no subinvestimento ou nas cativações/não execução orçamental que permitem que o nosso Ministro das Finanças seja considerado o Melhor Ministro das Finanças da Europa, permitindo-lhe andar com um ar vaidoso de “aluno de 20” nos corredores de Bruxelas enquanto o Senhor Alberto espera 1624 dias para uma consulta de Urologia no Hospital de Vila Real (devia obter resposta no máximo em 5 meses), o José Manuel tem que esperar 1606 dias por uma consulta de Ortopedia em Faro, ou a Dona Aurélia cuja consulta prioritária de Dermatovenereologia que devia ser realizada em 2 meses e só acontece passados praticamente 4 anos. 

Não é contudo a análise economicista que proponho. Proponho sim que nos foquemos, além do aspecto da promoção da saúde e da prevenção explanados supra, na lógica organizacional, de funcionamento “em rede” optimizada (inter-unidades de saúde e inter-profissionais de saúde com o doente incluído em todo o ciclo terapêutico), de melhoria da funcionalidade, sendo este um caminho que, trabalhado de forma estratégica, pode muito bem servir o propósito de uma melhor “performance” e sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde.


E como optimizar então esta “rede”? Como torná-la mais funcional? Como aumentar as “performances” em Saúde e garantir a tão debatida sustentabilidade do SNS? 

De forma resumida apontaria algumas “pistas” (que certamente não serão da minha autoria): 

Todas as “pistas” apontadas permitem libertar espaço para que o médico tenha tempo para olhar para o doente e menos para o computador (obviamente uma generalização mas que terá o seu realismo implícito), saindo da actual claustrofobia burocrático-administrativa e dilatando o actual regime muitas vezes praticado de consultas “em série”. Toda esta realidade não será imputável a nenhum profissional de saúde, em específico o médico, mas sim ao sistema e sua disfuncionalidade.  

Num Portugal onde cada vez se vive mais, como diria a Directora-Geral de Saúde, Dra. Graça Freitas referindo-se ao nosso país “Viver mais foi uma conquista, viver melhor é um desafio”.  O imperativo de nos mantermos saudáveis, o único combate totalmente eficaz face à doença, e as alterações cirúrgicas propostas para a estrutura do sistema de saúde podem não ser a “quimera” para um sistema de saúde que apesar de todas as conquistas, tem um longo caminho a percorrer, mas para todas as grandes conquistas sempre há um caminho…

Pedro Colaço

Coordenador do Gabinete de Ação Social da JSD Distrital de Lisboa