Hoje, 1 em cada 4 portugueses vive na Área Metropolitana de Lisboa. Região em rejuvenescimento, ao contrário de muitas outras no nosso país, concentra muitos postos de trabalho, escolas, instituições de ensino superior, entidades da administração central, entre tantos outros serviços.

Esta região tem assistido a uma pressão residencial significativa, à medida que famílias, jovens, empreendedores, estrangeiros e turistas são atraídos pela cidade de Lisboa, uma capital europeia de pleno direito que se desenvolve e afirma no panorama mundial.

A procura tem vindo por isso a aumentar os preços da habitação e o custo de vida, mesmo nas zonas limítrofes da cidade, pois a rede de transportes de que dispomos não é amiga das deslocações diárias. Numa capital europeia, não é compreensível que se demore 1h30 a percorrer 20 km de transportes, entre casa e o trabalho. Não é compreensível que o carro continue a ser a única opção em muitas zonas, que não dispõem de oferta de transportes de proximidade ou estacionamento em locais de transbordo. São estas realidades que ditam que muitos de nós continuem a ambicionar residir dentro da cidade de Lisboa.

Embora mais de metade das deslocações diárias dos 3 milhões de residentes na Área Metropolitana de Lisboa culminem na capital, em especial via A1, A5, A2, A8 e IC19, a verdade é que outros municípios, como Oeiras, Alcochete, Amadora, Palmela, Loures ou Odivelas também são em muito pressionados pelas deslocações pendulares. É particularmente preocupante pensar que grande parte destas deslocações são realizadas em veículos privados, muitas vezes com apenas um ocupante, com todos os impactos ambientais e de congestionamento que daí advêm. 

Hoje, acreditamos que a mobilidade deve ser ponderada a nível metropolitano e inter-regional.

A descentralização da residência e dos locais de trabalho é crucial para garantir a coesão territorial, o equilíbrio de preços da habitação e a qualidade de vida de todos. Mas esta descentralização só é sustentável, em termos ambientais e em termos de manutenção de qualidade de vida, com a garantia de transportes públicos coletivos modernos, fiáveis, amigos do ambiente e integrados entre si.

Não é realista pensar que só tem qualidade de vida quem tem condições para morar nos centros nevrálgicos da atividade económica. E não é realista continuar a concentrar as empresas, serviços e instituições de ensino na cidade de Lisboa. Temos de pensar o território como um todo, criando condições para a deslocação de empresas e pessoas para outras zonas do país, sem implicar deslocações penosas de várias horas.

Foi por isso muito relevante entender a situação atual dos transportes públicos na Área Metropolitana de Lisboa, indo além da perceção que todos já tivemos: chegar ao trabalho de transportes demora demasiado tempo, nem sempre há garantia de serviço e não há percursos nas zonas onde moramos.

Por mais louváveis que sejam as intenções de redução de circulação automóvel em zonas congestionadas, não acreditamos que estas sejam realistas sem serem precedidas de uma aposta real em transportes públicos. Iniciativas de redução de preços dos passes sociais, também elas de louvar pela poupança que permitem às famílias, deveriam ter sido acompanhadas de um alargamento da oferta que não deteriorasse os níveis de serviço. Sem investimento estrutural que incremente e modernize o transporte coletivo, iremos continuar a pôr em causa a sustentabilidade e felicidade por, na prática, continuarmos a depender de carro para deslocações diárias.

Entender os problemas da mobilidade e oferecer a nossa visão sobre potenciais soluções têm vindo por isso a afirmar-se como prioridades para a JSD Distrital de Lisboa. Dedicámos atenção a este tema através da reflexão interna, comparação internacional, debate com especialistas e empresas do setor e lançámos, simbolicamente, a primeira pedra da construção de Metropolitano de Loures, a afirmação de uma das nossas propostas nesta área.

Para promover verdadeiras respostas de mobilidade na área metropolitana, discordamos em absoluto da aposta da expansão do Metropolitano dentro da cidade de Lisboa com a linha circular, defendendo sim a expansão das linhas para Loures e Alcântara.

Pensando racionalmente na utilização de recursos para investimento, acreditamos que a implementação de soluções BRT – Bus Rapid Transit – nas vias de acesso mais congestionadas da cidade de Lisboa seria a opção que, com a atual tecnologia, responderia melhor às necessidades, por ser uma solução mais simples de implementar e mais flexível a curto/médio prazo. Esta solução baseia-se em faixas dedicadas para autocarro, com um sistema de estações de transbordo com parques de estacionamento automóvel capazes de efetivamente acomodar as necessidades de deslocação diária de quem vem de fora da cidade de Lisboa.

Para quem diariamente procura deslocar-se em transporte público, é notória a degradação da oferta ferroviária. É prioritário apostar no comboio, transporte ambientalmente mais responsável, que promove a movimentação de grandes fluxos de passageiros.

Estas opções estratégicas de mobilidade devem ser complementadas com meios de transporte locais que façam a ligação entre grandes locais de desembarque e estacionamento, estrategicamente colocados junto aos principais nós de transportes públicos, e os locais de residência e escolas, bem como com opções de mobilidade suave que permitem responder a necessidades de deslocação curtas. Expandir percursos coerentes de ciclovias e incluir bicicletas elétricas partilhadas em todos os municípios da Área Metropolitana de Lisboa, com sistemas compatíveis entre si, é para nós crucial.

 Por outro lado, e porque o futuro está a bater-nos à porta, não podemos ignorar os testes realizados com veículos autónomos. Queremos ser parte integrante da avaliação destes modelos de mobilidade sem condutor, promovendo os testes destes veículos em Lisboa.

 Por fim, nenhuma solução de mobilidade é realista sem funcionar em rede; todos os transportes coletivos e soluções de mobilidade partilhada têm de funcionar em conjunto, com articulação e coerência, pondo também a tecnologia ao serviço dos consumidores. Apanhar um autocarro deve ser tão espontâneo quanto chamar um Uber; deve ser possível comprar um bilhete de metro, autocarro ou comboio através de uma aplicação, um SMS ou usando um cartão de débito contactless, por exemplo. Prever a hora de chegada ao local de trabalho utilizando transportes públicos deve ser tão fiável quanto ligar o Waze; a integração de todos os transportes deve permitir planear e prever as rotas, com os transportes públicos rodoviários a terem prioridade, por exemplo, em cruzamentos congestionados. Experiências recentes com mobilidade on-demand procuram avaliar a possibilidade de ter autocarros que se adaptem, em tempo real, às necessidades dos passageiros; ou seja, cada passageiro insere a sua origem e destino numa aplicação e o sistema de gestão de percursos dos autocarros agrega todos os pedidos existentes, desenhando rotas que se adaptem verdadeiramente às necessidades. Sendo uma visão futurista, acreditamos que é uma possibilidade de pôr a tecnologia ao serviço das cidades, integrando a potencialidade das smart cities no dia-a-dia dos cidadãos, e que por isso vale a pena avaliar.

A nossa visão para uma mobilidade do Século XXI é que o transporte coletivo seja verdadeiramente uma alternativa de qualidade ao transporte privado individual. Só quando cada um de nós considerar, de forma livre, que a compra de um passe, para uso contínuo, ou de um bilhete, no momento, são objetivamente opções mais fiáveis, rápidas, práticas e acessíveis que o uso de carro é que verdadeiramente resolvemos os problemas da mobilidade na Área Metropolitana de Lisboa.

Alexandre Poço
Presidente da JSD Distrital de Lisboa