O tempo tem passado e o debate em relação ao modo como lidamos diariamente em sociedade vai sendo posto de lado, enquanto as vozes que se levantam sobre este tema vão esmorecendo ao longo desse mesmo esbatimento. No entanto, tendo esta oportunidade, não poderia deixar de referir a importância de refletirmos em que sociedade queremos viver e como o queremos fazer.

Sendo a base da convivência sã a forma e o modo como se aplicam os conceitos de cidadania nas sociedades modernas, o debate sobre este tema leva-nos sempre à idiossincrasia entre o individualismo egoísta e o altruísmo comunitário. Sendo eu afeto a uma sociedade que atue com base num comportamento altruísta e em comunidade, não poderei deixar de levantar a importância deste mesmo debate para o tipo de sociedade que queremos e os moldes em que vemos a cidadania atuar. 

As consequências entre o modo como lidamos em sociedade e identificamos o tipo de direitos e deveres que temos têm um impacto tremendo na relação diária com as minorias. Não interessa se se tratam de minorias étnicas, religiosas, políticas ou se até as, erradamente consideradas, minorias referentes a doenças cognitivas ou motoras. O que importa é o modo como as aceitamos e integramos. Não quer isto dizer que seja responsabilidade da maioria ou do Estado impor as vontades da minoria, deturpando o conceito de democracia, mas considero uma obrigação moral pensar no modo como aceitamos e integramos as diferenças e de que forma queremos agir para que essas diferenças sejam parte integrante do modo como vivemos.

É neste sentido que o maior desafio do presente é, a meu ver, viver em sociedade. Não concebo uma sociedade que tende a viver numa “bolha banhada de egoísmo” que não concebe praticar os princípios e valores morais mais importantes da formação das sociedades modernas e que dão origem à vivência em comunidade. 

Por esta razão, sinto um tremendo orgulho em poder contribuir para o desenvolvimento e consciencialização da importância de uma cidadania ativa que promova a convivência em comunidade, protegendo aqueles que, na maioria dos casos, não têm quem os proteja. A falta de proteção que muitos dos cidadãos sujeitos às propostas que apresentamos nesta temática demonstram a distância a que estamos da sociedade que devemos ambicionar. Não aceito, enquanto jovem deste país, que se permita que uma pessoa portadora de uma deficiência cognitiva possa estar à mercê da estrutura familiar onde nasce e que o Estado ignore a sua proteção. 

Não quero viver num país que viva tranquilamente com o facto de termos pessoas a viver na rua sem qualquer acompanhamento, é um direito constitucional que deve efetivamente ser cumprido. Não vivo continuando a imaginar as dificuldades diárias que um cidadão enfrenta para se deslocar, devido à ignorância no momento de aplicar a Lei, aquando das diferentes barreiras arquitetónicas existentes para portadores de deficiências motoras. Mas também não aceito que tudo isto aconteça porque não se educa para a cidadania, porque não se formam agentes ativos da mudança, porque fechamos a porta à participação política nas escolas, porque procuramos uniformizar o pensamento e provocar uma acefalia generalizada. Não aceito que isto aconteça porque ignoramos, enquanto comunidade, aqueles que querem fazer a diferença e ocultamos a informação necessária para o desenvolvimento da sociedade. 

São estas as razões que me levam a dizer que o desafio do presente é viver em sociedade promovendo a efetiva cidadania. Como cidadão que sou, espero que este contributo sirva para resposta à necessidade de cumprir com os meus deveres, defendendo os direitos dos outros. 

David Pereira de Castro

Vice-Presidente da JSD Distrital de Lisboa e Coordenador do Gabinete de Associativismo